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Comentário de Jorge Jacó em 29 outubro 2011 às 19:44 A Filosofia não pode mais se restringir à tradição filosófica, pois assim procedendo, deixa de atingir tudo o que o homem fez.
A tradição do logos puro e simples, não dá mais conta de todo o desenvolvimento que o pensamento alcançou.
Alguns filósofos, notadamente Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard e Heidegger, não se enquadram nessa visão meramente logos. Eles problematizam a racionalidade puramente lógica com a qual os filósofos encaravam o mundo. Eles introduzem nesse pensamento que pretende compreender a realidade, um elemento afetivo - o Phatos.
Daí a importância do cinema para redefinir o emocional.
Comentário de Jorge Jacó em 29 outubro 2011 às 19:59 Simplesmente ver o filme não é fazer filosofia, nem configura nenhum tipo de saber. Para fazer filosofia com o filme, precisamos interagir com seus elementos lógicos, entender que há uma ideia ou um conceito a ser transmitido pela imagem em movimento.
Mas simplesmente entender esse ideia, tampouco é suficiente. devemos impor a pretensão de verdade e universalidade em nossa leitura do filme, quer o diretor tenha proposto isso ou não.
Essa é a proposta da criação desse grupo.
Comentário de Jorge Jacó em 29 outubro 2011 às 20:47 Vamos falar um pouco de Platão para posteriormente elencar alguns filmes que trouxeram a sua filosofia ao domínio público.
Filósofo grego nascido em Atenas no ano de 427 a.C., Platão se chamava Aristocles, nome de seu avô. Platão deriva de "Platos", que significa ampliação, extensão, e com essa palavra se queria aludir a alguma coisa de largo ou amplo que Platão tinha: suas costas.
Era, como todos os gregos que se dedicavam à ginástica, um homem robusto.
Sua origem é nobre, havendo reis em sua genealogia, daí o seu interesse pelas questões políticas.
Toda a vida de Platão é marcada pelo conflito entre seus ideais políticos elevados, e os excessos e atrocidades políticas cometidas pelos políticos efetivamente existentes no mundo, que ele chamava, nosso mundo imperfeito.
A grande decepção política veio quando seu mestre Sócrates foi condenado à morte, pelos democratas que haviam retomado o poder da mão dos oligarcas.
Afastou-se das lidas políticas, aproximando-se às reflexões filosóficas.
Fundou a sua famosa Academia, cujo nome se deve ao herói chamado Academus. A partir daí, os filósofos se transformaram em "acadêmicos".
Platão permaneceu na direção da Academia até sua morte, em 347 a.C.
Comentário de Jorge Jacó em 29 outubro 2011 às 20:57 O pensamento de Platão:
Para Platão, as coisas não possuem suas qualidades de uma forma casual ou eventual, mas em virtude de sua participação em uma Ideia universal, incorpórea, imutável, única e eterna.
As coisas vermelhas assim o são por sua participação na Ideia pura de vermelho, o mesmo se dando com as coisas abstratas como a beleza: as coisas belas assim o são por sua participação na Ideia pura do Belo.
O caráter totalmente particular do mundo, que nos chega pelos sentidos, é somente uma aparência, sendo a essência última do mundo de natureza imaterial ou lógica, composta pelas Ideias puras.
Essa realidade verdadeira não está no nível do sensível e deve ser descoberta pelo esforço da contemplação das Ideias, das quais os objetos particulares são apenas uma participação, uma realização sempre imperfeita.
Essa relação entre universal e particular é muito complicada, daí a dificuldade de entendimento da teoria platônica.
Comentário de Jorge Jacó em 1 novembro 2011 às 5:02 A grande dificuldade que sentimos na compreensão da filosofia platônica é sabermos se há uma Ideia absoluta de tudo. Por exemplo, há uma Ideia absoluta de guerra?
Lendo e relendo a sua obra, podemos tentar classificar ideias de coisas, e o fazemos elencando cinco tipos fundamentais:
1.Ideias valorativas: o Bem, o Belo, o Justo etc;
2.Ideias lógicas: a Identidade, a Diferença, o Ser, o Não-ser, o Uno, o Múltiplo;
3.Ideias matemáticas: o Círculo, o Diâmetro, Número etc;
4.Ideias de objetos materiais: a Pedra, o Ferro, o Homem etc;
5.Ideias de objetos artificiais: a Mesa, o Martelo etc.
Notamos que a Guerra não é de nenhum desses cinco tipos: não é valorativa, nem lógica, nem matemática, nem material, nem artificial. Trata-se, na verdade, de um tipo de evento ou de prática humana.
Seria legítimo perguntar por sua Ideia platônica?
Fiz essa introdução para ter um arcabouço de análise das guerras, do ponto de vista do cinema, pois essa temática, seguramente, detém uma marca histórica de filmes.
Elencarei alguns desses filmes, tentando adaptá-los à teoria platônica das Ideias.
Até!
Comentário de Jorge Jacó em 5 novembro 2011 às 20:21 Há uma quantidade imensa de filmes de guerra. Classifico-os em três grupos:
1.Filmes que fazem a apologia ideológica dos norte-americanos, salientando uma "superioridade" dos EUA em relação às demais potências beligerantes. Não me reportarei a essa linha de filmes;
2.Filmes que enaltecem a extrema violência. Também não me ocuparei deles;
3.Filmes que trabalham a questão ético-política-filosófica, surgidos a partir a guerra do Vietnã. Aqui tivemos verdaeiras obras-primas do cinema. É nessa vertente que tentarei elencar a analisar filmes sob a ótica platônica.
Destaco: Platoon, de Oliver Stone; Apocalipse Now, de Francis Ford Copolla e, principalmente: O franco-atirador, de Michael Cimino e Amargo regresso, de Hal Ashby. Trarei à discussão desse Grupo esses dois filmes.
Comentário de Jorge Jacó em 5 novembro 2011 às 21:32 No filme "O franco-atirador, um grupo de amigos da Pensilvânia é convocado para lutar na guerra do Vietnã.
O começo do filme os mostra trabalhando numa siderúrgica, divertindo-se nos bares da cidade e saíndo para caçar animais. São pessoas simples, extrovertidas, saudáveis e despreocupadas.
Um dos rapazes - Steven - está se preparando para casar. Aqui há o paradoxo, pois o casamento é, por definição, um voto de confiança na existência futura, um ideal platônico de felicidade, alegria no porvir. Diante da grande possibilidade de morrer em uma guerra, aquele casamento aparece, em meio à alegria da festa, como uma espécie de castelo construído sobre um pântano.
As cenas de guerra ocupam um espaço pequeno no filme, sendo este mais uma reflexão a respeito do valor da vida humana. A vida humana é a grande idealização de Platão.
As contradições são muitas. No começo do filme, os jovens literalmente brincam com a vida, sem saber de seu valor genuíno. Fazem apostas de corridas de carro, saem para caçar com o objetivo de voltarem com muitos cadáveres de animais, fruto de seus tiros certeiros. Suas armas são uma diversão; a vida, uma espécie de objeto de aposta, sempre está aberta a possibilidade de riscos divertidos.
Michael, um dos jovens, mata um veado e observa sua agonia com indiferença, completamente inconsciente do valor da vida e da terrível realidade da dor.
Para todos eles, a guerra será uma experiência decisiva, depois da qual nada mais será como antes.
Durante uma ação, os três se tornam prisioneiros dos vietnamitas e são obrigados a jogar roleta-russa sob a ameaça de castigos físicos. Quem se recusar é atirado num poço cheio de água e ratos.
O jovem recém-casado, Steven é o mais fraco e não suporta a experiência. Voltará dela traumatizado e paralítico.
Nick, por sua vez, assimila a experiência de outra forma, não menso patológica, transformando-se em um jogador profissional de roleta-russa, enquanto Michael é o único que consegue voltar aparentemente sem maiores feridas, físicas ou morais.
Depois do retorno, Michael sai a caçar e, diante de um veado à mercê dele, como os que antes matava a sangue-frio, diapara para o alto, de forma libertadora, permitindo que o animal fuja e continue gozando as maravilhas da existência, que agora o jovem aprendeu dolorosamente a respeitar.
Nick morre em uma sessão de roleta-russa. Após o seu enterro, o grupo de amigos reúne-se ao redor de uma mesa e começa a entoar o hino americano "Deus salve a América", como que levados por um forte sentimento comum de união, apesar de tudo.
Bem, amigos, relatei o enredo do filme e, espero que iniciemos uma rica discussão de todos os aspectos filosóficos que o envolvem.
Abraços
Comentário de Jorge Jacó em 6 novembro 2011 às 7:47 O segundo filme que trarei à baila é "Amargo regresso, de Hal Ashby. Ao contrário do "Franco-atirador", esse filme não apresenta nehuma cena de guerra. Luke é um sargento que voltou do Vietnã paralítico. Em um hospital, anda em uma padiola, apoiando-se em uma bengala, arrasado e cético, convencido de ter sido enganado e de ter participado de algo que não tinha absolutamente nenhum sentido.
Sally é casada com Bob, um oficial que está partindo para o Vietnã cheio de ideais de patriotismo. Durante a ausência dele, Sally trabalha como voluntária no hospital e conhece o amargurado Luke, e ambos se apaixonam.
Bob volta da guerra com a perna ferida e se prepara para receber uma condecoração, mas confessa a Sally que, na verdade, ele mesmo se feriu com a própria pistola ao ir tomar banho.
O final alterna as cenas de um discurso fundamentalmente antibélico de Luke, diante de uma platéia de jovens, com as do suicídio de Bob no mar.
Amigos, com esses dois filmes resumidos aqui, poderemos entabular algumas considerações sobre a relação desses filmes com a filosofia, notadamente com o pensamento de Platão.
Até
Comentário de Jorge Jacó em 27 novembro 2011 às 9:38 Talvez se possa pensar que dois filmes que mostram tão pouco da guerra não sejam adequados para pensar a essência platônica da guerra. Engano. Nos dois filmes, a guerra é exatamente aquilo que faz com que Michael, Nick, Steven e Luke se transformarem em psicóticos, inválidos, amargos. Neles deve refletir, portanto, a essência da guerra.
Mas podem essas ressonâncias psicológicas da guerra, completamente pessoais, ser consideradas elementos pertencentes a sua Ideia platônica?
As guerras são "definidas", porém não se faz nenhuma alusão às reações psicológicas dos envolvidos. Precisamente, o meio de expressão do cinema permite acrescentar a emocionalidade da guerra, que nos dá, efetivamente, a Ideia dela.
A guerra é inseparável de sua ressonância afetiva. não podendo entender o que ela é simplesmente por meio de uma caracterização objetiva.
Se o universal platônico, a Ideia-em-si da guerra, for entendido de forma puramente lógica, o cinema desconstruirá, à luz de Derrida, esse tipo de universal, distanciando-se da caracterização platônica da Ideia.
Oi Jorge Jacó, tudo bem?
Como é bom ter um espaço como esse para ler o que o amigo e professor Jorge Jacó escreve, compartilhando conosco toda essa experiência e sabedoria de vida.
Todos seus grupos e fóruns são bem interessantes, mas gosto muito de filmes, então esse também é um dos que estou lendo com afinco e dedicação para entender todos os fatos que um filme quer nos passar como expectadores.
Agora nas férias quero assistir todos esses que você está comentando e muito mais.
Puxa vida!
Essa semana que vem estamos super lotados em afazeres da nossa graduação, segunda prova de Libras, quinta apresentação do Ensaio e sábado prova de Filosofia da Linguagem... Ufa!
Boa semana!
Muitos abraços e tudo de bom hoje e sempre!
Bem-vindo a
Academus
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