A morte apesar de ser a única certeza que acompanha o ser humano desde o principio da vida, é motivo de medo e inseguranças que resultam em amplas discussões. É em meio a essas discussões que a filosofia passa a contribuir, pelo fato de apontar caminhos e oferecer alternativas sobre como pensar a respeito do assunto, pois possui abordagens diferentes que retratam o enfoque da morte e da velhice.
“A filosofia ajuda a deixar a vida com a sua cara, o nosso pensamento mais ordenado e profundo, nosso olhar mais amplo, nossos juízos menos superficiais”. E essa profundidade se faz imediatamente necessária com o passar dos anos, ou melhor, após já se terem passado muitos deles, quando a morte é iminente, no tempo da maturidade avançada. O que traz a discussão para uma nova realidade, é o crescente número de idosos no Brasil e no mundo.
Além ou em paralelo com a questão da velhice, as reflexões sobre o tema também levam em conta fatores culturais. Por exemplo, orientais e ocidentais evoluíram de maneira diferente em relação à aceitação da morte e do próprio envelhecimento, pois para os orientais a estrutura familiar, pensa que a autoridade da velhice é justificada pela posse da sabedoria.
Agora, no que diz respeito à relação maturidade/morte/filosofia, o filósofo e doutorando da PUC João Borba, afirma: “Não sei até que ponto da Filosofia pode nos ajudar a lidar com o envelhecimento e a morte, mas uma coisa é certa: a morte e a idade que avançam em direção a ela, ajudam-na a lidar com a Filosofia”. Isso se deve, segundo Borba, porque a condição de ‘velhinho’ coloca o ser humano diante da morte com uma intensidade que talvez só seja comparável a de um soldado em meio aos tiroteios num campo de batalha. Nesse sentido, o ‘velhinho’ tem que encarar a morte dia após dia, sentindo-a chegar a cada pequena dificuldade, em cada mau funcionamento de seus órgãos.
Para o filósofo francês Blaise Pascal, o homem vive em uma constante fuga de um grande vazio “perturbador” que existe dentro dele mesmo. Ele afirma que tudo o que se faz no dia-a-dia, tarefas, atividades, no fundo são “divertimentos” superficiais, tentativas de “divergir” desse vazio insuportável e de se dispersar em diversas direções para não precisar encará-lo. Mas esse vazio é inevitável, está sempre presente e no fundo em tudo o que o homem faz, e em tudo que ele é. Borba explica também que, em relação à ideia do vazio e da diversão, Pascal não está falando diretamente da morte, mas poderia, se pensarmos o drama que tantas pessoas vivem ao chegar a certa idade.
O idoso começa a se dar conta de que não tem mais “o que fazer”; não trabalha e não conseguem resolver, sozinho, pequenas tarefas diárias. “Quando o individuo não consegue mais fazer boa parte do que antes fazia por hábito ou prazer, ou até mesmo para ‘matar o tempo’, começa a se dar conta de que suas atividades reduziram-se drasticamente e tem a sensação de que essas atividades eram importantes justamente porque eram atividades. Eram na verdade, uma maneira de desviar desse vazio assustador, que se aproxima”.
Além de Pascal, outros filósofos ocuparam-se da temática do idoso, onde contribuíram significativamente para a diminuição do preconceito e da exclusão do ancião, além de introduzirem novos conceitos a respeito de como lidar com o envelhecimento.
Platão, em “A República”, transmitindo os ensinamentos de Sócrates, diz que para os seres humanos prudentes e bem preparados, a velhice não constitui peso algum. Defendia ainda que com a velhice os seres humanos adquiram sentimento de paz e libertação. Aos 80 anos, quando escreveu “Leis”, enfatizou as obrigações dos filhos para com os pais idosos, e reforçou que nada é mais digno que pais e avós cheios de idade.
Já no primeiro século antes da Era Cristã, o romano Marco Túlio Cícero, escreveu o livro “De Senectude”, no qual resumem sua visão sobre o envelhecimento, os problemas que os idosos enfrentam e destaca que, com o avanço da idade, os prazeres corporais são substituídos pelos intelectuais. Na obra Cícero enfatiza a necessidade de preparar o idoso psicologicamente para a morte. Para ele, a arte de envelhecer está em encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, pois todas têm as suas virtudes.
Para Cícero, não se deve atribuir à velhice todas as lamentações da vida. Segundo ele, aquele que muito se lamenta, o faz em todas as idades da vida e os seres humanos inteligentes sempre tentaram afastar o temperamento triste em qualquer idade. Destaca ainda, quatro aspectos detestáveis da velhice: o fato de esta fase afastar o ser humano da vida ativa, a constatação de que ele enfraquece o corpo, a condição de privar o indivíduo dos melhores prazeres e a aproximação com a morte.
Já na era contemporânea, entre os diversos pensadores que abordam o assunto, destaca-se o filósofo francês Michel de Montaigne. Para ele, “filosofar é aprender a morrer”. De certa forma, o estudo e a contemplação retirariam a alma do corpo e a ocupação longe dele, o que seria um aprendizado e, de alguma maneira, a representação da morte.
Então, se a filosofia é uma das formas da transcendência humana, pela qual refletimos nossa experiência e destino, a morte então, não lhe pode ser estranha. Por fim, Montaigne defende que toda sabedoria e discernimento do mundo se resolvem quando o ser humano aprende a não temer o fim da vida.
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), as projeções indicam que, em 2050, a população idosa será de 1,9 bilhões de pessoas, o equivalente à população infantil de 0 a 14 anos de idade. Uma das explicações para esse fenômeno é o aumento, verificado desde 1950, da expectativa de vida, em todo mundo. Dados de 2002 mostram que em cada dez pessoas tem 60 anos de idade ou mais e, para 2050, estima-se que a relação será de uma para cinco em todo mundo, e de uma para três nos países desenvolvidos. Ainda, segundo as projeções, o número de pessoas com 100 anos de idade, ou mais, aumentará 15 vezes, e passará de 145 mil pessoas em 1999 para 2,2 milhões em 2050. Os centenários no Brasil somavam cerca de 14 mil em 1991, e já em 2000 chegam a mais de 24 mil pessoas, um aumento de 77%. Com uma maior expectativa de vida, proveniente de uma real melhoria das condições de uma significativa parcela da população, além da diminuição das taxas de fecundidade e da mortalidade infantil, o mundo passa a lidar com uma nova realidade.
O idoso, antes marginalizado e destinado a viver os últimos dias no convívio dos familiares ou no esquecimento do lar, ocupa hoje um papel social cada vez mais importante. Boa parte dos idosos é hoje, chefe de família, cuja renda média é superior àquelas chefiadas por adultos não idosos. Segundo o Censo 2000, 62,4% dos idosos e 37,6% das idosas são chefes de família, somando 8,9 milhões de pessoas. Além disso, 54,5% dos idosos chefes de família vivem com os seus filhos e os sustentam.
Um dos objetivos da sociedade contemporânea tem sido conduzir o idoso a descobrir novas perspectivas e significados da vida diante da reflexão sobre o que se chama de velhice ativa. Nos últimos anos centenas de grupos de idosos se formaram por todo mundo e as mais variadas atividades foram desenvolvidas com foco nesse público. Assim sendo, virou alvo do mercado através de propagandas específicas, produtos personalizados, planos de empréstimos e financiamentos, com o objetivo de atender ao mercado que ficou conhecido como o da “melhor idade”.
Além disso, políticas públicas, como por exemplo, o Plano de Ação Internacional da ONU, pregam a necessidade de promover uma abordagem positiva do envelhecimento e de superar os estereótipos que estão associados aos idosos. Outro aspecto abordado pela ONU é a eliminação da violência e da discriminação de que essa faixa etária é alvo e a necessidade de promover a igualdade entre os sexos, a importância da família, os cuidados de saúde e proteção social das pessoas idosas.
Bibliografias:
Platão – A República – Editora Martin Claret; 2° Edição – São Paulo, 2008;
Revista Filosofia – Ciência e Vida - Editora Escala, São Paulo; ano 1, n° 03.
http://bompraler.blogspot.com/2008/03/saber-envelhecer-seguido-de-amizade.html;
Outra reflexão magnífica sobre: O Começo Até o Final da Vida.
http://www.youtube.com/watch_popup?v=KF48xJpjq6I&vq=small
Outras considerações que pondero pertinentes sobre o assunto:
Desde os primórdios, muitos filósofos refletiram sobre o tema, tangendo informações significativas para o assunto. Todavia, atualmente, a morte é um tema com enfoques distintos, onde o mesmo mescla-se com conceitos, éticos, bioético, políticos e sociais. Desse modo, para todo aquele que procura entender a morte, é significativo deixar claro que ela é uma força altamente criativa, como também pode demarcar interpretações errôneas sobre o sentido da vida. Isso se deve, aos grandes valores da vida que podem surgir a partir de reflexões sobre a morte, sendo a morte uma certeza indubitável, ou seja, parte integral e ativa da vida e da existência humana é relativa às diversas explanações que o assunto assume, principalmente tratando-se da questão, onde a vida já não representa mais seu significado natural, ou seja, o indivíduo não encontra motivos para continuar a viver. Nesse contexto é que se direcionam as questões éticas, relacionadas principalmente ao campo da bioética, onde, todas as questões concernentes à vida humana direta ou indiretamente são abordadas e discutidas.
Epicuro sustenta:
"[...] O mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no momento, a maioria das pessoas a foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida." (DALL’AGNOL, Darlei, Ética I, 2008,76).
Ainda sobre a temática, Epicuro salienta que, o homem sábio, não teme a morte e nem despreza a vida, expressando que:
"O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal. Assim, como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve." (DALL’AGNOL, Darlei, Ética I, 2008, 76).
Por esses enfoques, e outros é que o posicionamento de Epicuro cerra com, a ética epicurista, sendo que a mesma é vigente segundo a procura pelo prazer, identificando então, que a morte, como fim da vida, representa o fim de todos os males, principalmente se estes participaram ativamente em um longo estágio da vida.
www.artigocientifico.tebas.kinghost.net/uploads/artc_1299107964.
Elizabete Moresco. Acesso 23/05/2011.
Comentar
Bem-vindo a
Academus
© 2012 Criado por Paulo Alberto Crestani.

Você precisa ser um membro de Academus para adicionar comentários!
Entrar em Academus